| Desentimentos |
| Artigos - Jornal Votura Indaiatuba |
| Escrito por Arnaldo Correa Junior |
|
“Passei boa parte da minha vida ao lado dele tentando entendê-lo e cedendo às suas vontades. Achava que, desta forma, estava fazendo o certo para manter a relação.” Dizia uma senhora para mim durante a sua sessão de terapia. Depois de tantos anos atuando em consultório, algumas situações como os desentendimentos e as mágoas que os relacionamentos provocam se tornam um pouco mais claras. Não quer dizer que a solução ou a saída tenha sido encontrada. À medida que definimos melhor o desentendimento não só amadurecemos um pouco mais, mas criamos maiores chances de errar menos. Quando falamos em desentendimentos uma das condições mais difíceis de se suportar é a distância e a indiferença que ocorre em alguns relacionamentos. Esta aparente indiferença, ou apatia, na verdade não está ocorrendo dentro de cada um. A imagem de frieza e o descaso, a falta de diálogo e as palavras ásperas criam um clima de guerra e, como disse há muito tempo uma psicanalista “Na guerra todos perdem”. Mas, se perdemos tanto quando vivemos um clima tão hostil e áspero, por que o fazemos? Penso que a resposta está na sensação de desqualificação e na impressão de não ser importante para o outro que as desarmonias acabam criando. “Não falo com ele há mais de quinze dias e não estou com vontade de falar!”, uma jovem adolescente desabafava comigo outro dia. Estava se referindo ao desentendimento entre ela e o pai, e prosseguia: “Quero que ele me peça desculpas”. Sem dúvida, na difícil arte de se relacionar, a maturidade e o bom senso precisam existir, mas, acima de tudo, é preciso perceber o outro, mais do que isto, é indispensável que o universo do outro seja descoberto e esta é uma tarefa diária, lenta e gradual. A conclusão que eu chego, sempre que penso a respeito do sofrimento e das mágoas provocadas pelos relacionamentos, me faz lembrar um antigo conto onde uma mulher era levada, inicialmente, para conhecer o inferno e lá se deparou com um grande caldeirão de sopa, onde as pessoas se agrediam e se acotovelavam na tentativa de se alimentarem. Era angustiante porque as longas colheres que cada um possuía não chegavam às suas bocas. Logo em seguida, foi levada ao céu e, para a sua surpresa, lá estava o mesmo caldeirão de sopa e as mesmas colheres, a diferença é que um alimentava o outro com a sua colher. Desentendimentos revelam muita coisa a nosso respeito, por exemplo, o quanto somos frágeis e carentes e o quanto imaginamos que o outro possa nos compreender. Por fim, coloco um pensamento de um psiquiatra, que diz mais ou menos que “o amor deveria criar uma visão superlúcida do outro e que, desta forma, eu saiba tocá-lo nas suas mágoas e cuidar de suas feridas”. Tomara sirva para você, como um dia serviu para mim. Arnaldo Correa Junior é psicólogo e apresentador do Programa “Com Você”, pela Radio Jornal Indaiatuba, aos sábados das 11 às 13h. |






